sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Em Novembro, Sexo é Quando a Avó Quiser

"SEXO É QUANDO A AVÓ QUISER" estreia dia 16 de Novembro, no Teatro Turim, em Benfica.
Esta é a nossa nova produção, que conta com Ana Campaniço, Carlos Alves e Susana Rodrigues. Depois de Os Nossos Vizinhos Dormem Cá em Casa, apresentamos um novo espetáculo que terá a exploração absurda de certas atitudes humanas como pano de fundo.

Um jovem casal, empenhado na construção de uma vida em conjunto, é surpreendido, numa noite, pela chegada da avó dela. Despejada do prédio, alegadamente para que este seja convertido num hotel, a avó rapidamente toma conta da casa e da vida deste casal. É este o ponto de partida para uma comédia de situação, recheada de momentos hilariantes provocados pelo choque de personalidades e da invasão de privacidade do outro.



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Faltam Feministas em Portugal

Às declarações de Rita Ferro Rodrigues sobre a falta de humoristas, cabe-nos questionar se ela o diz com pena ou com gáudio. Como quem diz “eh pá, faltam humoristas e a mim que me apetecia tanto dar umas gargalhadas para desanuviar um pouco depois de passar a tarde inteira a dizer o número 760” ou então “não temos humoristas mas também fazem cá tanta falta como uma dor de dentes”.

De facto, todas as recentes tomadas de posição públicas de Rita Ferro Rodrigues denotam uma grande incapacidade de encarar a vida com humor. Já é muito difícil haver qualquer coisa que a dona Rita Ferro Rodrigues goste, nos dias de hoje. Pelo que é legítimo concluir que Rita Ferro Rodrigues não quer humoristas. No máximo, veria com bons olhos o regresso dos “Malucos do Riso”.

Aliás, o argumento de que não há humoristas é a forma mais simples e primária de tentar aniquilar os que há. Todas as formas de silenciamento começam por desprestigiar aqueles que se querem calar.
Não vejo em Rita Ferro Rodrigues uma antidemocrática primária, ainda assim, há tomadas de posição, camufladas de luta contra discriminações de género, que reflectem um extremismo de grau bastante elevado. Quando os alvos são os humoristas, é porque a vontade de impor ideias e valores, silenciando outros já é bastante elevada.

Os humoristas brincam com os assuntos, na prática fazem piadas; podem contribuir, se o entenderem, mas não são eles que vão resolver os problemas da discriminação ou evitar uma guerra na Coreia.


Posto isto, julgo, sobretudo, que faltam feministas em Portugal.


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

"Panela de Pressão" é o novo programa de humor da RDS Rádio

No final de julho, quando iniciei a habitual pausa de Verão da rubrica "Dias em Crónica" na RDS Rádio, já sabia que ela não voltaria. Não o quis anunciar, ainda havia muito para planear, para pensar, discutir e decidir, mas a minha convicção era essa. A minha convicção era que, após quase quatro anos a fazer aquela rubrica na maior rádio das regiões de Lisboa e Setúbal, havia necessidade de refrescar. Até porque já não aguentava mais ouvir aquele genérico. O humor na rádio é um trabalho muito específico, em que o texto importa, a voz é essencial mas estamos numa zona em que os olhos não veem e o coração tem de sentir.

Foi então que, ainda em julho, apresentei a minha nova proposta à RDS. Vamos, em setembro, apresentar uma rubrica de cara lavada, passada no crivo de quatro anos de sucessos e erros, acrescentada com ideias que nunca chegaram ao microfone, alicerçada na certeza de que não farei humor controlado (porque está muita gente a ouvir... ai, ai), pois certamente ganharia mais em estar calado. Eles aceitaram e eu deitei mãos à obra.

Assim surge agora o "Panela de Pressão". Na rádio, nos mesmos horários da rubrica anterior, e depois em podcast, em setembro. A data será anunciada muito em breve.






quinta-feira, 27 de julho de 2017

Coisas de Mulheres


Depois da participação no Got Talent Portugal, a Ana Campaniço decidiu começar a preparar um monólogo completamente novo. "Coisas de Mulheres" foi o mote para a minha escrita de um texto humorístico que mergulhasse nessa imensidão de "coisas". O resultado é apresentado, em estreia nacional, em setembro, no Teatro Turim, em Lisboa.


SINOPSE
As histórias da condição feminina na aparente vulgaridade do quotidiano de todas as mulheres num espetáculo hilariante e único. Em cima de um palco são expostas todas as questões às quais nenhuma mulher é indiferente e das quais nenhum homem sai como inocente. As dietas, os filhos que existem ou não, as roupas, os casamentos, o sexo e muitos mais temas serão abordados de forma crítica e atípica. “Coisas de Mulheres” é um monólogo intensamente cómico na abordagem que faz ao universo feminino. Interpretado por Ana Campaniço, decerto levará a espectadora, e não menos o espectador, a rever-se nas situações relatadas, como quem ri ao espelho.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Saltos Altos

Hoje estou de regresso a temas mais leves, nesta época estival, e por temas leves entende-se assuntos que não interessam a ninguém. Lembra-se quando havia a revista Super Pop? É mais ou menos isso. Uma revista inteira com temas que não interessavam a ninguém, a não ser a miúdas com a cara cheia de borbulhas e muita tristeza na alma por ainda não terem namorado. Atualizando para os dias de hoje, é o equivalente à revista Nova Gente. Também não interessa a ninguém, a não ser a mulheres com a cara tapada de maquilhagem e muita tristeza na alma por terem perdido os namorados todos.
Assim sendo, e procurando satisfazer um pouco, salvo seja, este público alvo, pretendo refletir um pouco sobre saltos altos. E o que acho eu em relação aos saltos altos? Acho o seguinte: se os saltos altos foram feitos para as mulheres, porque é que poucas mulheres sabem andar neles? Se queriam inventar uma coisa específica para as mulheres, deviam ter pensado em alguma coisa que fosse fácil para todas usar. E saltos altos não é o caso. Claro que os travestis viram que podiam fazer melhor e começaram imediatamente a calçá-los. Porque eu tenho a certeza que qualquer travesti anda melhor de saltos altos do que 95% das mulheres. Há algumas que, de facto, sabem caminhar com aqueles andarilhos e fazem-no perfeita e maravilhosamente bem. E, portanto, essas não nos interessam para aqui, porque eu gosto é de explorar a mediocridade e a vergonha alheia. E, no que toca a saltos altos, há muita vergonha para explorar.
De todas as mulheres que não sabem de todo andar em saltos altos e que podiam perfeitamente usar apenas ténis mas insistem, há várias categorias.
Há a categoria EQUILIBRISTA. Andam na avenida como se estivessem numa corda bamba do Cirque du Soleil. A qualquer momento podem cair para o lado com estrondo mas lá se vão aguentando, ora para a esquerda ora para a direita, é como se levassem sempre um saco de 10 quilos numa mão e um de 15 na outra.
A segunda categoria é a dos CARETOS. Como não conseguem andar naquilo, já não conseguem caminhar, tentam apenas pisar o chão. E então andam com a cara assustada e como se fossem lobisomens, prontos a atacar. E lá vão. Saiam da frente, que ela não tem travões!
Por último, as MASOQUISTAS. Dói-lhes o corpo todo, desde os pés passando pela coluna até à testa, ainda assim tentam manter-se verticais em cima do terceiro andar. São as que concentram todo o esforço na parte de baixo, esperando que as pessoas se fixemem nas pernas em vez de lhes olhar para a cara. Porque na cara, só se vê sofrimento.
Realmente, a Humanidade nunca foi justa com as mulheres. Sabia-se que tinham de passar pelas dores da menstruação e depois pelas do parto. Cuidando que isto representasse pouco sofrimento, arranjaram-se-lhes uns saltos altos. O que mais virá para as mulheres, meu Deus? O que mais virá
Meninas e senhoras, calcem a neutralidade de umas sapatilhas e curtam a vida! Guardem os saltos para o dia do funeral porque aí estão deitadas e fica bem. É só mandar fazer um caixão com mais dez centímetros.

- Ah, mas se eu precisar de ira um casamento tenho de ir com uns saltos…

Não vale a pena, eles vão divorciar-se na mesma.


terça-feira, 18 de julho de 2017

De Anomalias Está o Inferno Cheio

As declarações do médico Gentil Martins sobre a homossexualidade surpreenderam-me muito. Desde logo, fiquei surpreendido por descobrir que Gentil Martins ainda estava vivo. Mas a gentil anomalia do Dr. Martins, referindo-se aos homossexuais, fez saltar muita raiva dos dedos das pessoas que descarregam opinião em teclados de computador e dispositivos tácteis. Hoje em dia, a raiva é uma coisa que sai muito pelos dedos, menos pela cabeça. O médico Gentil Martins não fez nada de mais; falar de homossexualidade é a melhor forma de pôr toda a gente a escrever nas redes sociais, até mesmo os que não sabem escrever. De resto, eu, que nunca considerei a homossexualidade uma anomalia, atrevo-me a verificar que a única anomalia que vejo está localizada no ensino de português nas escolas. E isso nota-se muito bem quando é preciso discutir a homossexualidade. As palavras saem em catadupa e só é pena que não sejamos capazes de interpretar o que é que realmente as pessoas querem dizer, porque aquilo está indecifrável. Ainda assim, deu para entender a animosidade contra o velho senhor, para quem o ânus masculino apenas servirá para exteriorizar dejectos e, no máximo, introduzir dentes de alho para não ter de ir à guerra. Foram feitas queixas à Ordem dos Médicos e foi dado mais um pretexto para evidenciar o quão homofóbica a sociedade continua. Ainda bem que há pessoas como o Dr. Gentil Martins porque as associações LGBT precisam de razões para existir. Já pensaram o que seria se não houvesse homofobia? Não teriam utilidade as LGBT, o que representaria uma desgraça para muita gente. Além do mais, perder-se-ia a oportunidade de todos podermos demonstrar a nossa capacidade extraordinária de não ser homofóbico nas redes sociais. É um regalo ver toda a gente a pavonear ideias ditas progressistas, ainda que, no íntimo, confessem aos amigos esperar que o filho não seja gay quando for grande. Mas isso é tudo gente que não vê anomalia em coisa nenhuma…


segunda-feira, 17 de julho de 2017

Sunset no Verão, Silly Season o Ano Inteiro

Estamos em plena época de caça ao sunset. O que é o sunset? É o por do sol. É uma coisa que já existe pelo menos desde que há sol mas agora até para isso é preciso um vestido novo e um copo de gin. Ninguém vai ver o por do sol de calções, t-shirt e chinelos. O por do sol tem de ser visto com roupa da Bershka, litros de água tónica com gelo e um pouco de bebida amargosa lá dentro, ao som de uma música que faça lembrar uma empresa de mudanças a carregar móveis para uma carrinha. Por isso, procurem na em blogues da especialidade quais os sunset perto de vós onde poderão ir hoje!

- Mas não posso ver o por do sol da varanda da minha casa? - pergunta o leitor.
Podes. E até é mais inteligente.

O verão é, além do mais, pródigo em lixo informativo, pelo que infografismos com os melhores sunset deste Verão também poderão ser consultados em jornais ditos de referência e outros.
De resto, valia mais que os jornalistas tirassem todos férias porque, durante estes meses, só se enterram. A verdade é que, cada vez mais, se enterram o ano todo. Mas, no Verão... Ninguém está com paciência para notícias importantes e então vai de lhes servir banalidades. Nesta época, toda a imprensa vira revista de cabeleireiro.
Eu devo contar que uma vez, já há muitos anos – quer dizer, muitos também não tenho, mas já há alguns anos –, pouco tempo depois de acabar um curso de jornalismo, passou-me a ideia de ir pedir emprego a um grupo desses que detêm uma panóplia de revistas ditas cor de rosa. Uma empresa que começa por I e acaba em A e rima com sala ou pala. Enfim, eu não devia estar bem nessa altura para achar que talvez pudesse fazer sentido eu escrever sobre a congestão nasal de Rita Pereira ou banalidades sobre outras pessoas sem qualquer relevância social, muito menos cultural. Na altura, eles perceberam mais depressa do que eu que isso não fazia sentido e não me deram emprego. Claro que arranjei outro logo a seguir e até hoje nunca fui responsável por frases como: “veja os melhores decotes da festa da TVI”, “José Carlos Pereira em clima de romance com (preencher espaço branco, porque eu não sei os nomes das pessoas) ou “David Carreira na nova novela da TVI”.

Bom, mas esta última ninguém devia ser obrigado a escrever.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Lá Não É Como Cá

O Verão é a melhor época para ficarmos a conhecer como funcionam os outros países. Como funciona a França, a Suíça, o sistema de Saúde do Luxemburgo e a Segurança Social da Alemanha; quanto é que um trabalhador desconta por lá? E que direitos tem? E tudo, e tudo?...

Porque, atenção, lá não é como cá! – Esta é uma frase com a qual todo o rol de explicações vai começar

Porque, lá, nós vamos ao médico e ainda é o médico que nos paga por termos ido;

lá não é como cá, porque, lá, compramos um carro e o carro vem por aí fora e tem travões e embraiagem já incorporados

sim, mas cá também…

mas lá não é como cá, porque, lá, os travões vão a fundo e travam…

traz aí duas cervejas para este rapaz! quanto custam? Dois euros?! Traz quatro cervejas para este rapaz porque lá não é como cá, com dois euros nem uma cerveja bebes!...

Agora, só volto cá na reforma, porque lá não é como cá, eu desconto e eles dão-me a retraite assim sem pedir… levam-ma a casa e ainda pedem desculpa!

Agora, só volto cá para o ano, no mês de agosto, antes da retraite, porque… lá não é como cá, não fico no café até às dez da noite, nem passo as tardes no shopping ao domingo, nem vou ver o Benfica ao estádio, nem o Tony Carreira ao Olympia porque…

lá não é como cá, se fizesse isso tudo, estava lixado, vinha de lá endividado, sem retraite, sem carro nem travões nem dois euros para pagar duas cervejas, porque…

lá não é como cá

cá estava-se bem melhor mas agora não dá jeito

deixem-me gozar o prato durante duas semanas porque o resto do ano é só marmita


sábado, 1 de julho de 2017

Quatro dias a morrer duas vezes

No Teatro Turim, em Lisboa, está a decorrer mais uma apresentação da Oficina de Teatro. Sob a direção dos atores Carlos Alves e Ana Campaniço, os alunos apresentam "Nem Que Morra Duas Vezes", um "espetáculo carregado de marcas expressionistas, transportadas para um registo de comédia negra, com a música e a dança a marcar o ritmo de um cabaret a descobrir e onde imergir".

Esta é a terceira criação saída da Oficina de Teatro do Turim, fruto do trabalho e aprendizagem desenvolvidos ao longo de períodos de três meses.

De acordo com a coordenação do workshop, este vai entrar agora em período de férias, retomando no mês de setembro. Até lá, estão abertas inscrições para que novas pessoas possam entrar.


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Poema Revelado Por Uma Comuna

Se eu fosse poeta e a poesia fosse coisa vã
Narraria com palavras simples a profunda dor que em mim não há
Vejo os barcos a passar, alegra-me o orvalho da manhã
E, adulto crescido, recordando a sopa da mamã
Escrevo o que vejo e não sinto
(Porque sopa não se sente nem é bom tema para poetas)

Espalharia por toda a parte
Se poeta fosse um dia
As linhas da minha poesia

Dariam meus temas motivo de estudo
E análises feitas, não importa se bem ou mal,
Sairiam impressos e tudo
No enunciado do exame nacional
Sigilosamente preparado por uma comissão.
Tanto texto estudado, um que sai outro que não,
E meu poema guardado de forma tão soturna
Viria a ser revelado por uma comuna.

(Carlos Alves)




segunda-feira, 19 de junho de 2017

À Terceira, da Oficina para o Cabaret

A Oficina de Teatro do Turim vai já na sua terceira criação. Este mês é apresentado o terceiro espetáculo, interpretado pelos alunos da Oficina, dirigidos pelos atores Carlos Alves e Ana Campaniço.
"Nem Que Morra Duas Vezes" é a peça que estará em cena durante quatro dias, uma oportunidade para assistir ao trabalho deste grupo e à sua evolução.
Este é "um texto inédito e um espetáculo carregado de marcas expressionistas, transportadas para um registo de comédia negra, com a música e a dança a marcar o ritmo de um cabaret a descobrir e onde imergir", explicam os responsáveis pelo curso.
Com uma regularidade de sensivelmente três meses, os alunos da Oficina de Teatro do Turim apresentam ao público um espetáculo novo, fruto do trabalho feito em ambiente de aulas. "Nem Que Morra Duas Vezes" sucede a "Nós Não Somos Atores" e "Duelo de Vaidades" e pode ser visto entre 29 de junho e 2 de julho, no Teatro Turim, em Lisboa.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

As Encomendas de Ronaldo

Cristiano Ronaldo continua a fazer crescer a  família. O futebolista encomendou mais dois dos EUA e eles aí vêm. Provavelmente assim ficava isento dos portes de envio, pelo que optar por dois fez todo o sentido. São a Eva e o Mateo. Estes nomes madeirenses…
Ronaldo faz-me lembrar um amigo que tenho e que está sempre a encomendar aparelhos da Alemanha. Depois, quando as coisas chegam, nós vamos lá a casa dele vê-las.
Eu acho fantástico que, quem pode, faça as coisas de encomenda. Porque fazer um filho ainda é coisa que cansa, por isso, sendo possível pagar, é comprar feito. Andar ali para a frente e para trás, para cima e para baixo, pernas para um lado, braços para outro… e depois afinal não resultou, tem de se voltar a fazer tudo outra vez para a semana... Não. Havendo dinheiro, é comprar feito.
É claro que, em Portugal, ainda temos de pôr muito as mãos à obra, até porque a lei não permite determinado tipo de coisas. Mas as barrigas de aluguer é um assunto a colocar em cima da mesa, na minha opinião. Se der para alugar barrigas ao preço a que se alugam casas em Lisboa, até eu faço obras e alugo a minha. Também é só uma questão de abrir uma divisão nova e depois criar uma conduta para se entrar e sair. É um assunto a pensarmos todos.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Nova Criação - "Nem Que Morra Duas Vezes"

As pulsões internas do Ser Humano expostas entre a luz ténue e as sombras de um cabaret. Um cabaret das necessidades, onde se vai para as satisfazer mas donde nunca se sai saciado. Sexo, prazer, religião, um pequeno e reservado mundo de instintos e a possibilidade de uma história de amor que nasça tão improvável quanto sentida.

"Nem Que Morra Duas Vezes" é o nova criação da Oficina de Teatro do Turim, com direção de Carlos Alves e Ana Campaniço.

Um texto inédito e um espetáculo carregado de marcas expressionistas, transportadas para um registo de comédia negra, com a música e a dança a marcar o ritmo de um cabaret a descobrir e onde imergir.

Apresentações nos dias 29, 30 de junho e 1 de julho às 21h30 e no dia 2 de julho às 17 horas, no Teatro Turim.


Nunca Fala a Marta

Quem ainda hoje não se recorda da Marta, da OK Teleseguros? “OK Teleseguros, fala a Marta!”. Esta frase foi repetida, recomida, refundida até já dar arrepios de vómito iminente só de ouvi-la. A Marta foi uma estrela do atendimento telefónico. No fundo, a Marta trouxe aos call centers o glamour que eles nunca tiveram. Se o não tinham na altura em que a esbelta Marta apareceu, com um sorriso de anúncio a pasta de dentes como quem quer vender seguros automóvel, muito menos o têm agora. Os call centers são e serão sempre a antecâmara do inferno laboral. Permanecem a antecâmara porque o inferno propriamente dito foi extinto na gloriosa época em que se aboliu a escravatura nas sociedades civilizadas. Se muita gente decidiu ir estudar Comunicação Social só porque achava graça ao José Rodrigues dos Santos a piscar o olho no fim do telejornal, não acredito que alguém tenha aceitado um emprego num call center apenas inspirado pelo sorriso da Marta. Na verdade, as pessoas vão para call centers quando mais nada resta. E uma sociedade que deixa um lote da sua população entregue a um bando de supervisores com ar de quem manda alguma coisa dentro de um escritório, não merece mais do que ter de ouvir o hino da SIC cantado em loop por uma tuna e um rancho folclórico.


Os supervisores de call center são, porventura, dos seres humanos menos interessantes que o planeta Terra já acolheu. Apesar disso, são a prova viva de que para ser parvo não é preciso estudar. Um pequeno cargo de meia chefia entregue a pessoas para quem atender o telefone sem se esquecer de dizer “bom dia” já seria uma vitória, é coisa que pode subir muito rapidamente à cabeça. Depois, ter um grupo de pessoas ali disponível e chamar-lhe “equipa”, isso então deve ser orgásmico.
Nada disto tem a ver com a Marta. A Marta de qualquer call center não consegue aquele sorriso, apresenta uma cara a quatro cirurgias plásticas daquilo e tem um supervisor com bazófia a mais para estatuto a menos. Tal como aconteceu aos que foram estudar Comunicação sem serem capazes sequer de escrever um postal à família, o mundo imaginado não estava lá para existir. E o mundo de muitos dos que foram estudar Comunicação antes de alguma vez terem pegado num jornal, acabou num call center. Não faz mal, um dia hão-de dar a volta. Agora, se já chegaram a supervisores, não há volta a dar. Daí já não passam. Mas podem sempre dizer aos amigos que têm uma “equipa”. E fazê-lo com aquela entoação de quem tem alguma relevância social. A entoação talvez consigam, a relevância já não.


Ronda das Artes Síntese (Edição nº 3, de 7 de junho)

Ronda das Artes - Edição de 7 de junho

Síntese semanal:

  • Cinema: sessão de curtas-metragens na Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema
  • Teatro: FITEI, "E Se Fosse... Absurdo?!" no Teatro Bocage (produção: Ditirambus) e "Cabaret do Coxo" no Teatro Turim (produção: ContraTempo Produções)
  • Música: novos discos de Sebastião Antunes e de Luiz Caracol



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