quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Como é que se conta uma história assim?

Pegar em "No Céu Não Há Limões" do Sandro William Junqueira consuma a verdadeira definição do prazer de ler. A narrativa é uma sucessão de frases com sabor - como é que se conta uma história assim?

O livro prende-nos aos personagens, ao ambiente, ao conflito, mas agarra-nos, sobretudo, às palavras e ao ritmo com que elas surgem no papel. Uma "realidade" tão terrena exposta de uma forma tão sublime!


Uma obra magnífica!




terça-feira, 16 de setembro de 2014

Uma História de Halloween

As tardes em sítios calmos e retirados podem ser aborrecidas. Mas ela sentia esse aborrecimento com prazer, era um aborrecimento que a fazia sentir-se bem. O desapego de não ter deixado nada por fazer por nada ter planeado e a consciência de que o que fez não tem o valor suficiente para ser considerado alguma coisa. Uns quantos programas de televisão consumidos de seguida sem sentido crítico, apenas absorção, enquanto lá fora o vento se mostrava menos complacente com as árvores que rodeavam tanto o jardim da casa que agora habitava provisoriamente como o da casa da frente. Não conhecia o vizinho da frente, tinham-lhe dito até que ele não existia, que ninguém morava naquela casa. O certo é que as árvores permaneciam lá.

Não choveu nessa tarde, por muito que a ameaça fosse constante. Se a chuva tivesse caído, teria encharcado o livro que ela deixara no banco, lá fora no jardim. Abandonara o livro nessa manhã. E abandonara-o mesmo, para nunca mais o abrir. Dizia Mitchell que um livro lido até metade é como um caso de amor interrompido. Pois ela já interrompera muitos namoros literários. Os autores nem sempre são os culpados mas há leituras que não conseguimos levar adiante com gosto, que nos cansam, que nos dizem pouco, que a nossa sensibilidade teima em não deixar seguir leve, empenhada e fluentemente. Virginia Woolf, Isabel Allende, Salman Rushdie contam-se entre os divórcios improváveis que podem acontecer. E acontecem. E há muitos mais. Que foram premiados e elogiados, que foram perseguidos, que se suicidaram. E, por fim, as suas palavras podem ser abandonadas.

A tarde chegava ao fim e era noite de Halloween. As crianças viriam, certamente, fazer a ronda em busca de doces, armadas com lanternas.  Por agora, a rua continuava vazia.

Depois do jantar, os meninos apareceram. Já se ouviam quando ainda vinham longe. Num ermo de tanto silêncio, qualquer ruído é facilmente identificado. Ela saiu para o jardim, preparando-se para as receber. Em frente, uma luz avermelhada saía de junto da porta da casa da frente. A casa onde não morava ninguém, de quem não conhecia o último dono, que nunca ninguém referia, tinha uma abóbora iluminada do dia das bruxas.

As bruxinhas e os vampiros chegaram, cantaram, falaram, riram, brincaram e levaram a recompensa devida. Ficaram por ali alguns minutos até agradecer e partir. Ela cruzou os braços, deitou um último olhar à rua e voltou para dentro. Estava bem mais quente e a aparelhagem continuava a tocar num volume baixo. As crianças não foram à casa da frente.


Carlos Alves

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Carlos Alves (Cinema)

De alguns dos meus trabalhos em Cinema saiu esta sequência rápida de imagens. Ver mais em http://carloalve3.wix.com/carlos-alves e diariamente na minha página oficial.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Nessa Luta

Na frieza de um poema a ferro e fogo
Na presença que se quer quando se foge
Nessa luta em que enfraqueces para vencer

Hei-de espancar-te com beijos

Carlos Alves
09.09.2014

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Qualquer dia

Qualquer dia faço um poema com a palavra sexo
Qualquer dia faço um poema
Qualquer dia faço
Qualquer dia…

Qualquer dia faço um poema qualquer

Carlos Alves
01.08.2014

domingo, 27 de julho de 2014

A Dica da Fernanda Montenegro

Dicas não tenho coragem de dar. Aceito todas se vierem de quem eu reconheça capacidade e estatuto para isso. Mas olho muitas vezes à minha volta e gosto do "Desista!". Se é para isso, desista!


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Do Desperdício


Insistes em não pegar na tesoura
Para cortar o que te gastou energia

Mas podes
O sinal do outro lado já está desligado

Carlos Alves
24.07.2014 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Da oportunidade

Se a oportunidade perdida não lamentas
A desoportunidade futura faz-te sorrir para ela

Para voltar a falhar  

Carlos Alves
14.07.2014

sábado, 12 de julho de 2014

Saberei encontrar-te



Saberei encontrar-te depois do dia
Depois das sombras que o tempo te pintou
Saberei voltar da viagem que não fiz

Enquanto amadurecia o que me ficou cravado na pele


Carlos Alves
12.07.2014

Talvez quando acordares...



Talvez quando acordares tragas a metade que deixaste adormecer em ti
Talvez a outra metade estivesse à espera que acordasses
Da noite para o som resultarão fugas desfeitas


Carlos Alves
28.05.2014 

Deste Lugar em Fuga



Podes estar sempre lá
Sempre perto, sorrir perto, falar baixo
no tom que escolhes para agradar e não deixar
que tu magoes
No tom que fizeste com que quisessem magoar.
Estás sempre lá
Na mesma fuga
No mesmo espaço, outro lugar
Não é a chuva que te vai amolecer
Não é o fogo que te vai queimar
Não é por mim que vais deixar de ser
Não é em mim que vais ver o teu lugar.

Carlos Alves
25.01.2013

Por Não Querer Voltar



Por fingir que se dá, por fingir que se é
Por pensar poder dar e não conseguir ser
Há gente que tenta, gente que cai
Há gente que entra e gente que sai.
E é duro sair para onde se estava
E não se quer estar. É não querer ficar.
É medo que sufoca, é a ansiedade a subir
O anonimato recompõe-te mas impede-te de sorrir.
A luz incomoda, não te deixa dormir
A verdade turva o cérebro que te pede para mentir.
Olha para ti quando estás só
Procura por ti num lugar só
Vais-te encontrar mas não te vais ver
Vais ser tu contra ti, numa noite para doer.
Vais ser tu só contigo
Mas podes não te conhecer.

Carlos Alves
19.01.2013

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A proximidade destrói o fascínio da distância


A revista onde esta página pertence foi um adereço de uma das peças que fiz este ano. Há muito tempo que admiro o trabalho do Bruno Nogueira, acabei por ler a entrevista toda mas fixei-me nesta frase destacada.
Ela reflete muito sobre o fã nas nossas vidas. O fã tido para mim como aquela pessoa que nos admira pelo nosso trabalho, pelo nosso posicionamento social, pelo nosso modo público de estar. O fã que acompanha o que fazemos profissionalmente, que nos segue nas redes sociais, que muitas vezes nos surpreende pelo carinho e atenção que demonstra.
Essas são pessoas que nos seguem de perto mas que nunca nos conhecem bem. Porque só conhecem a imagem que lhes transmitimos, a imagem que construímos para passar aos outros. Não é de todo uma imagem falsa mas não deixa de ser construída. E é desse outro "eu" que as pessoas gostam.

Não significa isto que o que somos verdadeiramente seja pior do que a imagem pública que passamos mas é esta que é apelativa, porque distante. A proximidade, o conhecimento de outra pessoa destrói o fascínio da distância. É fácil sobrevalorizar o que vemos de longe, a quem nos é próximo vemos de igual para igual. Ninguém é tão fascinante como julgam aqueles que o admiram. Mas são estes que exageram, a culpa é deles.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Teatro Rápido - a despedida

Tenho lido todas as mensagens que nas últimas horas aqui têm sido partilhadas. São mensagens de tristeza, perda, emoção mas também orgulho por, de alguma forma, se ter feito parte daquilo que foi o Teatro Rápido. Quis também deixar-vos algumas sinceras palavras neste fim (palavra que não gosto de escrever) porque compreendo que as coisas às vezes tenham de acabar mas raramente acho que devesse ser assim. O significado de fim é um conflito comigo próprio.

Cheguei ao Teatro Rápido naquela que, afinal, foi a sua reta final, sem que eu disso tivesse consciência. Cheguei em abril. No último abril. Como ator. Como espectador já cá tinha chegado muito mais cedo. E foi um abril muito intenso, foi um abril muito bom. Hei-de recordá-lo sempre. Recordarei sempre a primeira pessoa que me recebeu, no primeiro ensaio. Ruy Malheiro, obrigado pela simpatia e pela disponibilidade! Recordarei o esforço diário e constante de todos os outros para que tudo estivesse a correr bem, para que eu sentisse vontade todos os dias de estar lá e trabalhar. Vamos deixar as enumerações, vocês sabem quem são, não são precisas linhas para vos descrever. Recordarei a Sala 4, o meu único pousio naquele Teatro, foi a minha Sala. Recordarei o texto que escrevi só para aqui, a encenação que desenhei só para aqui, o meu trabalho de ator, que me valeu a pena, que me acrescentou algo, o trabalho partilhado com a Ana Campaniço - mais do que uma colega, é uma pessoa muito especial na minha vida. Tudo contribuiu para que esse mês de abril, o último abril, fosse especial. Os colegas com quem partilhei o mês, todos tão bons! Que sorte ter estado convosco!

É um Teatro que encerra, é uma pena gigante, é uma perda terrível. Sonho com a Cultura desde miúdo, gostava de ver teatros a nascer, detesto vê-los morrer. Interessa-me agora apenas dizer-vos que valeu a pena assistir aos vossos espetáculos, valeu a pena concretizar, valeu a pena fazer parte desta história.
Bastava esta última frase, afinal, mas não vos consigo dizer tanto com tão poucas palavras.

Vamos ver-nos mais!
Até já!


Ator Carlos Alves

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Teatro Rápido - Direito por Linhas Tortas (Abril) - Reportagem

Deixo-vos aqui uma reportagem sobre as quatro peças em cena no Teatro Rápido. Obrigado à Raquel Cordeiro e à Ana Rita Santos. Belo trabalho!